
José Saramago por Fernando Meirelles em "Ensaio Sobre a Cegueira"
O escritor português José Saramago resistiu antes de vender os direitos para uma versão cinematográfica do seu best seller "Ensaio sobre a Cegueira". O autor sabia exatamente da dificuldade em transpor para as telas dos cinemas o complexo mundo fantasioso, denso, cruel e caótico criado por ele no romance.
Após muitas tentativas e ofertas, inclusive do brasileiro Fernando Meirelles, o roteirista canadense Don McKellar conseguiu convencer Saramago a confiar em um projeto. Dez anos depois, sendo que sete deles dedicados exclusivamente ao complexo roteiro, "Ensaio sobre a Cegueira" (Blindness) chega finalmente às telas, no próximo dia 12, e pelas mãos competentes de Meirelles.
O primeiro desafio do cineasta brasileiro estava, justamente, em como levar aquele universo para uma sala de cinema. Os personagens de Saramago não têm nome, não possuem histórias prévias bem definidas e também não estão em uma cidade identificada, o que dificulta uma maior intimidade e identificação do espectador.
“O público não tem como se identificar porque eles não são apresentados, não passam referências. No livro, pelo menos, ainda existe a figura do narrador, que conduz a história”, disse Fernando Meirelles, durante coletiva de lançamento, na última semana, em São Paulo.
Elenco – Desafios à parte, Meirelles levou com competência o romance aos cinemas. Para narrar a história da “cegueira branca”, o cineasta contou com elenco afinado: Julianne Moore e Alice Braga, que também estavam no lançamento no Brasil, além de Mark Ruffalo, Gael García Bernal e Danny Glover, entre outros.
O enredo se passa em uma localidade desconhecida, quando uma estranha cegueira começa a atacar alguns de seus habitantes. Contagiosa, ela parece se propagar rapidamente, sem nenhuma causa aparente, o que faz com que as autoridades se preocupem de imediato.Governantes e médicos decidem isolar os contaminados em um antigo manicômio desativado.
O local ganha cada vez mais pacientes, que passam a sobreviver em um ambiente indigno, sem comida, sujo e com diversas outras privações físicas e psicológicas, além de humilhações.
No local, está o Médico, papel de Mark Ruffalo, um dos primeiros contaminados, a Mulher do Médico, interpretada brilhantemente por Julianne Moore, a única que, milagrosamente, consegue enxergar, a Mulher dos Óculos Escuros, vivida por Alice Braga, o Velho da Venda Preta, papel de Danny Glover, a Mulher do Primeiro Homem Cego, Yoshino Kimura, e O Rei da Ala 3, interpretado por Gael García Bernal. Este aparece como vilão, ainda que não seja tão simplista julgar os que estão naquele terrível espaço presos.
"Ensaio sobre a Cegueira "pode ser dividido em três atos. O primeiro compreende o momento em que a contaminação começa a acontecer. O segundo é centrado exclusivamente no convívio sofrido dentro do manicômio e o terceiro acontece com o desenrolar da história, e as suas implicações para os personagens.
É justamente no hospício que a parte mais densa e difícil da história acontece. Meirelles, com base na história de Saramago, que obviamente teve que ser adaptada, coloca a lente em diversas imperfeições e crueldades humanas, não só daqueles que estão presos.Consegue mostrar a que ponto pode chegar o indivíduo em momentos de grande pressão e privação, os novos códigos que são criados.
“É um filme que nos faz pensar em quem realmente somos. Talvez nós não nos conheçamos”, analisa o diretor. Segundo o próprio Saramago, “não ficamos cegos. Acho que sempre fomos cegos. Cegos apesar de conseguirmos ver. Pessoas que conseguem ver, mas não enxergar”.
Técnica – Para colocar o espectador dentro do universo da cegueira, Meirelles utilizou diversos artifícios. O primeiro que chama a atenção é a escolha acertada ao fazer uso do branco exagerado, “que queima em diversos momentos”, como explica o diretor.
A fotografia e a luz querem demonstrar o real sofrimento dos personagens. Além disso, o diretor utilizou ângulos propositadamente mal enquadrados e, em algumas ocasiões, dissociou o som das imagens. “São truques para colocar o espectador dentro da história da cegueira”, revela.
Em algumas cenas, o público consegue ficar no ponto de vista do próprio personagem cego. A edição também contribui para a comoção causada pela história, em momentos muito tristes. Entre eles, as cenas em que os pertences dos pacientes são recolhidos, aliadas a uma trilha certeira e emotiva.
Ensaio sobre a Cegueira contou com locações em países diferentes, como Canadá e Brasil. Nas tomadas de São Paulo, a metrópole aparece irreconhecível, vazia e ainda mais pálida.
Eduardo Vieira, de A Tarde
2 comentários:
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